Pular para o conteúdo principal

Por que ler "A sábia ingenuidade de Dr. João Pinto Grande", de Yuri Vieira?

     Este livro provocará risos, lágrimas, medo, ira, serenidade, saudades. Como todas as boas leituras, abrirá caminhos na inteligência para compreendermos melhor nossa humanidade; dará forma a vivências cotidianas, expressando-as com linguagem clara, próxima de nossa sensibilidade e sem negligenciar a norma culta — o que é nosso dever notar e elogiar nestes dias, já que são características raras nas publicações nacionais e, infelizmente, são cada vez mais sacrificadas nos altares do "preconceito linguístico" e da obsessão com o português falado.
     Posso, inclusive, imaginar Doutor Pinto Grande a discorrer sobre esse tema, assim como faz com outras bandeiras ideológicas que certos intelectuais trabalham para tornar lugares comuns, sem espaço para o que realmente aflige os brasileiros. Com seu humor adulto, no sentido de ser maduro, Doutor Pinto desarma o drama histérico dos vitimistas e ressentidos, enquanto revela paciência diante dos aspectos trágicos da vida, mostrando-nos, assim, que não se trata de rir de todo problema e fingir que está tudo bem, nem de revoltar-se contra o mundo real em nome de um ideal, mas que, na verdade, há uma forma virtuosa, e amiga da inteligência, para lidar com a confusão e a violência do dia-a-dia.
     Confesso que o título me enganou direitinho, pois pensei que leria apenas uma comédia sobre um homem com nome excêntrico — até a vendedora ficou sem jeito para pedir ajuda aos colegas para procurar o livro para mim na loja; afinal, como dizer o nome do livro sem rir? Talvez achasse que nele houvesse sacanagem, uma pornochanchada literária. Nada mais contrário à verdade. As histórias em torno de Doutor Pinto podem ser cômicas e trágicas, e sobre elas sempre paira uma sombra — apresentada ao leitor já no primeiro capítulo —, contra a qual narrador e personagem principal combatem, cada um a seu modo.
     Yuri Vieira nos presenteia com um trabalho bem sucedido de "contar uma boa história", com as qualidades defendidas pelo mestre Rodrigo Gurgel. Além disso, enriquece-nos com referências da alta cultura, da ciência e da religião, cumprindo o desafio de levar o público a "expandir o horizonte da consciência", como defende o filósofo Olavo de Carvalho. Uma das histórias, em particular, ao narrar vivamente a experiência de imigrantes, que bem poderiam ser meus vizinhos, tocou-me sobremaneira, a ponto de desvendar para mim a estreiteza e superficialidade da minha visão de brasileiro e, ao mesmo tempo, levar-me à contrição pelos maus hábitos. Ao lado de casa ou do outro lado da rua pode esconder-se uma trajetória humana, plena de significados metafísicos, morais, políticos, que está ao alcance de um convite para jantar, mas que se perde em meio às preocupações imediatas e egoístas com fama, riqueza ou conforto. Creio não ser o único a passar por essa transformação interior depois de ler o desfecho dessa narrativa.
     Se algum dia estas palavras chegarem ao autor, e se puderem lhe propor algo a considerar nas futuras obras, desejo que ele tome nota sobre a posição das idéias conservadoras, das quais compartilho e que, suponho, devem ser também as suas. Um recurso muito empregado por ele é apresentar essas idéias de forma indireta, criando situações despretensiosas que, "só por acaso", são também informativas. Esse é um recurso válido e necessário, pois ajuda na difusão do contraditório em um imaginário social ainda dominado pelos movimentos revolucionários, mas infelizmente ele não funciona em algumas partes, especialmente no primeiro capítulo. É algo a ser aprimorado para parecer mais integrado à personalidade dos atores e mais natural à seqüência dos acontecimentos. Para mim, o melhor resultado foi obtido no capítulo "Amarás ao teu vizinho". Será um prazer acompanhar as próximas publicações do Yuri Vieira e ver mais frutos de seu amadurecimento como escritor. Os leitores brasileiros serão eternamente gratos por sua perseverança na luta com as palavras e no cultivo da autoconsciência. Que ninguém deixe de ler esta obra por vergonha do título. Que ninguém deixe de recomendá-la por vergonha (muito pior) das idéias que ela transmite.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por que precisamos de bons escritores?

     Em publicação recente¹, o crítico literário Rodrigo Gurgel comentou o livro Safra , de Abguar Bastos. A análise do professor nesta e em outras plataformas é sempre muito proveitosa para mim, uma vez que, para quem não o sabe ainda, Gurgel tem o projeto de percorrer os autores brasileiros do fim do século XIX em diante, examinando individualmente suas virtudes literárias e, no âmbito mais geral, qual é a contribuição de cada um para a formação da literatura nacional². Ler essas análises está me ajudando a fixar raízes na história do meu país e, ao mesmo tempo, está me fazendo pensar sobre meus esforços de leitor e escritor.       Na referida publicação sobre Abguar Bastos, por exemplo, Gurgel menciona uma sentença de Manuel Bandeira a respeito dos escritores brasileiros: Sobra-lhes imaginação, falta-lhes fantasia. O que isso quer dizer? Entendendo-se por imaginação "a aptidão de reproduzir no espírito as sensações" e por fantasia "a capacidade d...

Por que ler "Against the Pollution of the I", de Jacques Lusseyrand?

     Soube deste livro quando tive de pesquisar sobre pessoas que, mesmo tendo algum tipo de deficiência, se destacaram na história por suas conquistas. Para minha grande satisfação encontrei muitíssimos exemplos de superação e sucesso, e dentre eles o que mais me chamou a atenção foi este escritor do século XX, professor de literatura, membro e um dos líderes da Resistência francesa à invasão nazista, prisioneiro no campo de concentração de Buchenwald, um dos trinta sobreviventes franceses — entre milhares de mortos pelo regime de Hitler — e cego desde os sete anos.      O livro Against the Pollution of the I (em tradução livre,  Contra a poluição do eu ) reúne vários de seus textos, escritos originalmente para diferentes publicações, alguns inclusive com narração de suas experiências na guerra¹. Essa coletânea revela, porém, uma busca contínua na vida de Jacques Lusseyran: aproveitar o sofrimento e as próprias limitações para atentar-se àque...

Vago entre os gritos de um mundo insano

Vago entre os gritos de um mundo insano. Assim aturdido, com a ressaca das vozes. No íntimo, pergunto se há valor humano, Algum que sobreviva às bocas ferozes. "Não há", sopra-me ao ouvido um ar cerebral, "Tudo está tomado por matilhas de vilões, Cada gentileza corrompida por algum mal, Todo amor negociado à mesa de vendilhões." Já prestes a sucumbir, suspiro uma prece Vinda do mistério de uma vida além desta. Qual brasa de Prometeu se eleva e cresce, Dilatando-me o coração que no peito resta. Não quero o brilho daqueles deuses mortais, que do alto das cátedras oráculos derramam ácidos sobre os corações simples. Não mais! Vinde, ó fogo, pai dos pobres! Em mim aflorai! Quero a voz do Mestre, que m'estenda a mão. E diga-me: "Fiat!", e lhe direi: "Abba! Pai".