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Mostrando postagens com o rótulo poesia

Hino do amor divino

Por Matheus Monteiro Meu Senhor, amo-te e sou culpado por não te amar mais Sou cativo, eu que pensei ser livre Sou tolo, eu que me achava sábio Roubaste-me o coração, tentei em vão tomá-lo de volta. Não é possível fugir de quem amamos, Não é possível destruir o que é indestrutível, Semeaste em mim a plenitude do amor e só agora sou livre verdadeiramente. Explodindo-me na angústia de querer vê-lo, Ansiando com meu coração ardente que me veja, Chorando minhas culpas para perdoar-me, Prostrando-me, anulando-me, consumindo-me. Nada no mundo pode compreender o amor que sentimos, amor sentido por aquilo que é eterno, como um mergulho livre e infinito no mistério, águas voantes, ventos incandescentes, que brotam como flor do meu peito.

É triste quem possui inimigos

Por Matheus Monteiro É triste quem possui inimigos, Limitado ao espaço da sua tolerância. Insuportável é o ar de quem vê E briga, sem saber por quê. Quereria eu não ter inimigos, Para ser livre e não me ocupar em ter O receio que meu egoísmo sublima Para me cegar e, enfim, não compreender. Ouve o som que, no vento, ressoa, Da liberdade amor, do perdão você, A voz doce de uma donzela a chorar Pelo sentimento que jamais vai ter. Ó, meu serafim, consuma-me em chorar Sem derramar lágrima nem sofrer. Nesta contradição rompa meu olhar E me faça, então, simplesmente ser. Sendo, buscar a vida. Vivendo, perdoar e crer.

Lira do amor romântico

Atirei um limão n'água e fiquei vendo na margem. Os peixinhos responderam: Quem tem amor tem coragem. Atirei um limão n'água  e caiu enviesado. Ouvi um peixe dizer: Melhor é o beijo roubado. Atirei um limão n'água, Como faço todo ano. Senti que os peixes diziam: Todo amor vive de engano. Atirei um limão n'água, Como um vidro de perfume. Em coro os peixes disseram: Joga fora teu ciúme. Atirei um limão n'água, mas perdi a direção. Os peixes, rindo, notaram: Quando dói uma paixão! Atirei um limão n'água, ele afundou um barquinho. Não se espantaram os peixes: Faltava-me o teu carinho. Atirei um limão n'água, o rio logo amargou. Os peixinhos repetiram: É dor de quem muito amou. Atirei um limão n'água, o rio ficou vermelho e cada peixinho viu meu coração num espelho. Atirei um limão n'água, mas depois me arrependi. Cada peixinho assustado me lembra o que já sofri. ...

Correio de amigos é doçura

Por Carlos Drummond de Andrade (em "Amar se aprende amando") O correio de amigos é doçura que eu cultivo de forma negativa. As cartas vão chegando, e uma festiva sensação de amizade mais se apura. Mas eis que, ao responder, a tentativa de exprimir esse gosto se afigura empenho vão, pois que toda a finura do sentimento escapa à letra viva. Joaquim - Francisco, ideal correspondente que ao belo Van de Velde acrescentaste a mensagem posta mais excelente. Perdoa a quem confessa (pois não mente): o que a pena emudece por desgaste, no coração floresce plenamente.

Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti... Mário Quintana (Esconderijos do tempo)

Velhas árvores

Todo instante em eternidade

Por Matheus Monteiro A vida emana como fonte morna a bondade interna. Do oculto, escondido dos olhos alheios, libélulas, Voantes, coloridas, esperanças aladas nas procelas. A essência, corda vibrante da alma eterna, Chama quente e boa, a cada instante desabrochando as pétalas, É o que sou, é o que sinto, é o que me atomiza em parcelas. Gosto tanto e tanto... quero-as mais deveras.

Círculo Vicioso

Por Machado de Assis Bailando no ar, gemia inquieto vagalume: _"Quem me dera que fosse aquela loura estrela Que arde no eterno azul, como eterna vela!" Mas a estrela, fitando a lua com ciúme: _"Pudesse eu copiar a transparente lume, Que, de grega coluna à gótica janela, Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!" Mas a lua, fitando o sol com azedume: _"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela Claridade imortal, que toda a luz resume!" Mas, o sol, inclinando a rútila capeta: _"Pesa-me esta brilhante auréola de nume... Enfara-me esta azul e desmedida umbela... Por que não nasci eu um simples vagalume?"

Mudam-se os tempos

por Luís Vaz de Camões Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem, se algum houve, as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, Que já foi coberto de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto, Que não se muda já como soía. .................................................................................................... Este é um poema que, penso, tem muito a dizer. É fato que as coisas mudam, na natureza, na cultura, na vida contidiana. Também é fato que registramos, na memória, muitas dessas mudanças - e diria que, das coisas más, não só mágoas - como supôs Camões -, mas, pela perversão do homem, até mesmo um certo prazer contido e silencioso, ou mesmo um sentimento vivo de vingança e cruelda...

A profecia

por Matheus Monteiro Existe uma praia Existem peixes de vários tamanhos cores, credos... Eles sufocam com o ar. Quem vai os libertar? A morte? Mas e a vida? A ilusão? Mas e a verdade? Liberdade em ser, ver e sentir... Existe a praia, Existem peixes. E o mar? Existe o mar? Ele está lá. Mas por que peixes na praia? Perderam-se nas marés da incredulidade, Eles sufocam com o ar. Quem vai os libertar?