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Meditação quaresmal

Meditação para a Quaresma: a sede de amor e a solidão no mundo T odos já ouvimos alguém dizer que o amor de outra pessoa é necessário à nossa felicidade. De fato, ou ao menos parece ser verdade, que sozinhos não podemos ser felizes. Mas, quando pensamos nesse assunto, tendemos a julgar que "estar só" significa não ter ninguém por perto, se bem que, no fundo, no fundo, o que acontece é que, deste lado, estamos nós com o anseio de "ser alguém para alguém"   —   ainda que seja qualquer um  —  e, de outro, está a vastidão de um universo que não mostra muito interesse nisso. Até temos amigos  — o leitor pode dizer em sua defesa que os têm muitos. Talvez até estejamos em um namoro, em um casamento. Mas quem pode dizer, com segurança e honestidade, que não se sente só? Mesmo o Senhor sentiu-se sozinho no Horto das Oliveiras, deixado pelos apóstolos, e no alto da cruz, abandonado pelo próprio Deus! "Pai, por que me abandonastes?". Somos, assim, tentados a...

Precisamos de vida intelectual

     O problema do Brasil são os brasileiros — quem nunca ouviu essa queixa? Ela não fala das pessoas, precisamente, mas de certos hábitos seus, que melhor podem ser designados como vícios, e um deles, o mais grave na minha opinião, é a preguiça intelectual. Certa vez, ouvi de um senhor, com seus quase sessenta anos, a confissão de que não lia há muito tempo, desde a conclusão do ensino superior, se não lhe falhasse a memória. Muito bem, a lembrança do que fez, ou do que deixou de fazer, podia não lhe falhar, mas não se podia observar naquele momento, também, nenhuma outra habilidade intelectual que não fosse essa, a de não se esquecer. Mas e a leitura? E o cultivo da imaginação? E a descoberta de novas ideias? E a maturação das suas próprias no confronto com debates, ensaios, tratados, que fossem artigos de opinião em uma revista sensacionalista? Nada. Ele me assegurou que não lia nem uma página de jornal, em quase quarenta anos...

Meditação

Aonde iremos? Só tu, Senhor, tens palavra de vida eterna. E m tempo de provação, o fogo que molda o metal continua o mesmo, o que muda é a peça moldada, que fica cansada depois de sofrer muitas pancadas, depois de aquecer-se muitas vezes e outras muitas esfriar-se. A peça grita, chora, parece que vai se desfazer. Ela resiste, porém. Por que suporta tanto sofrimento? — perguntarão alguns. Como o faz? — interrogarão outros. No entanto, o que a todos incomoda, que desperta ansiedade — até certo receio —, é não saber quais são as chances de a peça se perder, de ela se partir e não ter mais conserto. Será a sua morte? Na agitação destas perguntas, quando a esperança falha e apenas se vê escuridão, quando no peito jaz cansado um coração ferido de derrotas, neste momento, convido o leitor a retornar à pessoa de Maria Madalena. Pouco se sabe a respeito dela. Que foi discípula de Jesus, que o seguiu até o monte Calvário e a crucifixão, que foi a primeira a vê-lo ressuscitado. A especula...

O entendimento atual sobre sinceridade

Nós aprendemos desde crianças a buscar espontaneidade. A certa altura da nossa formação, dizem-nos que, para sermos sinceros, precisamos expressar espontaneamente o que sentimos e que, sendo as restrições e os limites da ação a nós impostos pelos outros (a sociedade), as normas obstaculizam nossa expressão e, se seguidas por obediência, elas nos lançam à hipocrisia e privam-nos da autonomia. Esse ensinamento contrapõe espontaneidade a obediência, expressão dos sentimentos a normas, sinceridade a hipocrisia. Por ele dizemos que as normas aceitas de fora dissociam as nossas ações dos nossos desejos e, por essa razão, dissociam-nas de nós mesmos. Como os desejos parecem surgir espontaneamente, assim como os sentimentos de alegria, tristeza, dor e gozo, concluímos que eles são a sede da liberdade e o que melhor expressa «quem somos». Deixar de agir segundo os próprios desejos e sentimentos parece o mesmo que trair nossa identidade e desconectar-se de si mesmo, parece também que nós ...

Plano de estudo

Este texto é de autoria duvidosa. Muitos o atribuem a Santo Tomás de Aquino. Embora trabalhasse com a possibilidade de ele não ser da autoria do santo, o Pe. Sertillanges, grande tomista do século XX, inspirou-se nele para escrever seu livro "A vida intelectual", que é também excelente, recomendadíssimo. No Brasil, o Prof. Lauand acredita na sua autenticidade ( aqui ). Pelo sim, pelo não, todos concordam que o texto traz preciosos conselhos e que eles harmonizam-se perfeitamente ao espírito disciplinado, estudioso e ascético do Doutor Angélico. Eu o traduzi com base na edição eletrônica disponível em "Corpus Thomisticum". Sobre o modo de estudar Caríssimo João, em Cristo, Porque me inquiriste sobre o jeito como deves estudar para adquirir os tesouros do conhecimento, ofereço-te um plano: (1) que pelos pequenos rios, e não imediatamente em pleno mar, escolhas adentrar [na ciência], pois é preciso avançar do fácil em direção ao difícil. Este é, portanto, o m...

Como o Bom Ladrão

Meditação para a Quaresma : a vida de São Dimas O Padroeiro da Matriz de São José dos Campos é São Dimas, o Bom Ladrão. Embora não seja nomeado na Sagrada Escritura, a Tradição da Igreja o apresenta como Dimas e como santo, este último em atenção à promessa feita por Nosso Senhor: "Hoje entrarás comigo no Paraíso". Como joseense por adoção e crente na Providência Divina, dediquei-me a meditar sobre sua vida e aqui partilho com meus irmãos de fé os frutos dessa meditação para a Quaresma. Boa leitura. Salve Maria.   + Como o Bom Ladrão São Dimas gastou sua vida no erro, preferiu saciar a fome do corpo à fome do espírito, buscando antes os bens materiais, o prazer e o conforto do que a salvação, e tal foi seu apego a si mesmo que, por cobiça ou por desespero, tomou dos outros o que não lhe pertencia nem lhe cabia ter, o que lhe mereceu o título de ladrão. Desde o seu nascimento teve a chance de buscar a Deus e, antes daquele momento mortal na cruz, durante os tr...

Meditações pré-filosóficas

O presente texto nasceu de um problema: O que a atividade de pensar própria da filosofia exige de nós para surgir, nutrir-se e prosseguir? A filosofia não existe desde sempre e, mesmo antes dela, os seres humanos já desenvolviam teorias, calculavam, construíam, escreviam poesias, pintavam e faziam esculturas, guerreavam, elegiam e derrubavam seus governantes, cultivam, caçavam e trocavam riquezas... viviam como humanos. Mesmo agora, depois de uma sucessão multi-secular de filósofos e textos filosóficos, nós ainda nascemos, crescemos e prosseguimos com a vida, sendo racionais, sem contudo precisar saber "O que é filosofia?".  Todavia, algo dos nossos dias me chamou tanto a atenção que o problema adquiriu outra importância. Sabendo ou ignorando o que seja filosofia, dedicando-se ou não à atividade filosófica, estamos perdendo mesmo aquelas coisas, atividades, hábitos, crenças, que tínhamos e que nos deixavam maduros e abertos à filosofia. Pior! Observo que estamos perdidos...